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Curriculum Lattes - Dr. Salmo Raskin: Clique Aqui

Os neandertais vivem dentro de nós
Salmo Raskin



O sequenciamento do genoma humano demonstrou que uma grande parte do nosso código genético é constituído por res­­quícios do passado evolutivo do ser humano, verdadeiros “fós­­seis genômicos” que estão sendo estudados por duas novas especialidades da genética, a Genômica Comparativa e a Pa­­leon­­togenômica. Agora que genomas inteiros de mais de 3.800 espécies contemporâneas já foram sequenciados, e mais recentemente os de espécies extintas como Mamutes, pela primeira vez na história nos é possível praticar uma Genômica Comparativa, ou seja, é possível com grande precisão comparar os genomas de espécies diferentes, de modo nunca antes imaginável, e tentar compreender o que nos diferencia e o que nos assemelha as outras espécies. Isso nos dá a grande vantagem de estudar outras espécies contemporâneas ou extintas, como se estivéssemos praticamente pesquisando a nós mesmos.
Nesta nova epopeia de comparação de genomas, um fato novo e pitoresco acaba de ocorrer; o sequenciamento do genoma de uma espécie extinta a dezenas de milhares de anos, a dos nossos precursores Homo neanderthalensis. Neandertais viveram na Europa, na Ásia Ocidental e no Oriente Médio, antes de desaparecerem a partir do registro fóssil cerca de 30 mil anos atrás. Os neandertais foram reconhecidos como uma espécie humana em 1856 após a descoberta de fósseis encontrados no Vale de Neander, perto de Düssel­­dorf, Alemanha. Porém por mais de um século e meio os cientistas puderam comparar apenas as formas de fósseis de neandertais às formas dos nossos próprios ossos, na tentativa de trazer à tona as diferenças entre nós e nossos parentes mais próximos. Agora, em artigos publicados recentemente na renomada revista científica Science, pesquisadores relatam o primeiro rascunho do genoma do neandertal, o que significa que podemos compará-lo com vários ge­­nomas, entre eles, o nosso. Foi o que os pesquisadores fizeram; compararam o genoma contido nas células dos ossos de três mulheres neandertais que viveram na Croácia há mais de 38 mil anos, com cinco genomas de humanos modernos, pertencentes a indivíduos da África do Sul, África Ocidental, França, Papua Nova Guiné e da China, estes três últimos representando as regiões do mundo fora da África, continente onde nunca houve neandertais.
Muitos pesquisadores acreditavam que humanos surgiram na África e emigraram para Europa e Ásia substituindo completamente os neandertais, porém sem cruzamento com estes. O recente estudo permitiu descobrir que europeus e asiáticos modernos compartilham cerca de 1% a 4% do seu DNA nuclear com os neandertais, mas os africanos modernos, não. Isso sugere que os primeiros seres humanos modernos cruzaram com os neandertais depois que os humanos deixaram a África cerca de 100 mil anos atrás. O cruzamento teria ocorrido, com base em dados obtidos de fósseis, no Oriente Médio, mais especificamente nas cavernas do Monte Carmel, em Israel, antes que os humanos se espalhassem da África para Ásia e Europa.
Apesar de a comparação entre genomas de humanos e neandertais mostrar similaridade em cerca de 99,84% dos pontos estudados, os pesquisadores identificaram algumas regiões que evoluíram desde que nossos ancestrais e os neandertais divergiram entre 270 mil e 440 mil anos atrás. Porque os neandertais são tão próximos biologicamente a nós, comparar o DNA de neandertais com o nosso tem o potencial de revelar mudanças genéticas que poderiam ajudam a definir a identidade dos sapiens. Com esse intuito o estudo identificou diferenças em alguns dos nossos genes envolvidos na pig­­mentação e cicatrização da pele, no desenvolvimento cognitivo e esquelético, entre eles, genes relacionados com a síndrome de Down, esquizofrenia, autismo, diabetes tipo 2 e um gene responsável por uma rara doença em humanos caracterizada pelo fechamento atrasado das suturas cranianas e alteração na formação das clavículas e da caixa torácica, características morfológicas nas quais os seres humanos modernos diferem dos neandertais.
Temos hoje à nossa disposição ferramentas para explicar fenômenos de evolução das espécies jamais imagináveis não só por Charles Darwin, mas nem sequer por nós mesmos há poucos anos, na era pré-genômica. Estes novos e fascinantes ramos da genética, Genômica Comparativa e Paleontogenômica, trarão muitas informações surpreendentes nos próximos anos.
Fica cada vez mais evidente que ao menos uma parte da resposta para a pergunta “De onde viemos?” vamos saber quando compreendermos melhor as funções dos “fósseis genéticos” que carregamos dentro de cada célula do corpo. Esses novos conhecimentos so­­bre nós mesmos, as espécies que nos cercam e nos cercaram há mi­­lhares ou milhões de anos, trazem da natureza mais uma lição de humildade a ser aprendida pelos Homo sapiens: respeitar os ou­­tros seres vivos e o meio ambiente é respeitar a nós mesmos. Essa humildade será mais valiosa ainda no dia em que esses estudos nos trouxerem a resposta de por que os sapiens tiveram tanto sucesso a ponto de substituir todos os outros Homo que existiram.

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